
"Somos parecidos nas críticas e no deboche", Miró da Muribeca.
A 20ª edição da Festa Literária Internacional de Pernambuco (Fliporto) viveu uma de suas noites mais emocionantes neste sábado (15). A apresentação da peça “Carlos Pena e Miró cantam Recife”, escrita por Ronaldo Correia de Brito, lotou o Teatro Luiz Mendonça, no Parque Dona Lindu, e foi ovacionada pelo público.

A encenação musical reconstrói, com delicadeza e potência dramática, o encontro simbólico entre dois dos maiores nomes da poesia pernambucana: Carlos Pena Filho, expoente modernista de vida boêmia e versos eternizados, e Miró da Muribeca, poeta popular que transformou o cotidiano em literatura. Embora distintos em origem social e estética, ambos se encontravam na crítica afiada, no humor, na sensibilidade urbana e na força da palavra.

Conhecedor profundo das trajetórias dos dois homenageados, Ronaldo Correia de Brito conduz o público por um Recife de memórias, do mítico bar Savoy às calçadas da Padaria Santa Cruz, reduto frequentado por Miró, passando por cenários e figuras que moldaram a poesia pernambucana nas últimas décadas.

Na narrativa, Carlos Pena revive sua juventude: as madrugadas de pôquer e as longas conversas no Savoy, as amizades que mantinha entre intelectuais e políticos, e a vida boêmia assumida, que o acompanhou inclusive durante o período em que foi casado com Tânia Carneiro Leão. Seus versos icônicos, especialmente os do Soneto Azul, que lhe renderam o apelido de “poeta azul”, ganharam música na voz de nomes como Antônio Madureira.
"Então, pintei de azul os meus sapatos por não poder de azul pintar as ruas, depois, vesti meus gestos insensatos e colori as minhas mãos e as tuas"...

Miró, por outro lado, surge da Muribeca com sua poesia crua, vibrante e popular. A peça exibe um vídeo no qual o poeta fala sobre sua relação com o álcool, fragilidade que ele próprio reconhecia, e sobre sua escolha de viver exclusivamente da poesia, transformando as cenas vistas da janela de um ônibus em textos que marcaram gerações de pernambucanos.

O espetáculo promove um encontro poético “do além”, aproximando as duas vozes que, embora separadas por tempo, classe social e estilo, dialogam profundamente no imaginário cultural do Recife. A recepção calorosa do público evidencia o impacto da montagem, que provocou emoção, nostalgia e pertencimento.

Para a Fliporto, a apresentação reforça sua missão de celebrar a literatura em múltiplas linguagens e de preservar a memória cultural de Pernambuco. Segundo o curador-geral, Antônio Campos, a festa reafirma “a defesa da lusofonia, da identidade cultural e da integração entre tradição e tecnologia”.

A peça se consolidou como um dos pontos altos da programação dos 20 anos da Fliporto, que segue até domingo no Parque Dona Lindu, reunindo literatura, artes visuais, música e debates.

E, para encerrar o último ato, a frase que atravessou décadas entre os poetas boêmios: ‘À vida, aos amores e aos amigos’. Um brinde final.”
