
A política é feita de vozes, ou deveria ser. Quando uma Câmara Municipal silencia, quem perde não é apenas o debate público, mas a própria democracia. É exatamente isso que tem acontecido em Paulista, onde o Legislativo parece ter sido cooptado pela prefeitura e reduzido a um silencioso espectador dos problemas que se avolumam na cidade.
A principal função da Câmara — legislar e fiscalizar — está, na prática, adormecida. O comportamento dócil dos vereadores diante de denúncias e situações graves indica uma relação de possível dependência política que enfraquece o equilíbrio entre os poderes. E quando esse equilíbrio se rompe, quem sofre é o cidadão.
A gestão que governa de casa
É impossível ignorar o desconforto crescente da população com o modo de governar do prefeito. Relatos dão conta de que ele raramente aparece para trabalhar presencialmente. Prefere despachar de casa ou de seu sítio, sempre bem-humorado, rosado e cercado de presentes oferecidos por aliados, como as famosas caixas de uvas, sua fruta preferida.
A imagem, que poderia ser apenas pitoresca, torna-se preocupante quando confrontada com uma série de problemas sérios do município: contratações suspeitas, erros em concursos, desmatamento acelerado da Mata do Frio, protestos de kombeiros e obras para aliados. Em vez de enfrentá-los, o prefeito parece adotar uma postura de indiferença, resumida na música que gosta de cantar: “se o povo falar, nem ligue”.
Decisões terceirizadas e assessoria improvisada
Se a presença física é limitada, as decisões parecem seguir pelo mesmo caminho. Grande parte delas estaria sendo tomada pelo secretário de Governo, figura que ganhou notoriedade apenas após o segundo turno e que, segundo relatos, demonstra falta de habilidade política e pouco senso estratégico.
O resultado é uma administração conduzida por um pequeno grupo que se beneficia da proximidade com o poder, enquanto o restante da cidade fica à margem.
A comunicação do governo, por sua vez, se tornou um capítulo à parte, e um dos mais constrangedores. Três mudanças de comando em menos de um ano e relatos de que a pasta está atualmente sob responsabilidade de um vídeo maker, não de um jornalista, reforçam a sensação de improviso e falta de respeito com a categoria. Para lidar com imprensa, dizem alguns profissionais, só com “QI”: quem indique, especialmente entre vereadores aliados.
Servidores amedrontados e uma gestão sem norte
Os relatos de servidores são ainda mais preocupantes: perseguição, pressões e um clima de autoritarismo, lembrando métodos de governos que desprezam o diálogo. Não se trata apenas de incompetência administrativa, mas de um ambiente nocivo que compromete a eficiência da máquina pública.
Em vídeo exclusivo de nossa redação, o próprio prefeito reconheceu que metade de sua equipe foi herdada de Yves Ribeiro e a outra metade de Júnior Matuto. A confissão, dita como algo natural, revela muito sobre a falta de identidade e projeto. É como se o gestor assumisse que governa com peças emprestadas, sem rumo próprio, uma espécie de continuação remendada de administrações anteriores.
A filha pré-candidata e o desgaste entre aliados
Se os problemas da cidade não bastassem, surge agora outro elemento: a movimentação para lançar a filha do prefeito como pré-candidata a deputada estadual. A Secretaria de Direitos Humanos tem intensificado projetos e articulações políticas, o que vem desagradando alguns vereadores e causando desconforto interno. Quem ajudou a construir a vitória agora observa, desconfiado, o uso da máquina em benefício pessoal.
Quando algo explode na mídia ou irrita a população, o prefeito convoca seus vereadores aliados, os “filhinhos”, como alguns os chamam, para defendê-lo publicamente. E eles vão, obedientes. O Legislativo segue amarrado. A fiscalização, engavetada.
E a população?
Enquanto isso, Paulista amarga quase um ano de uma gestão dispersa, simbólica e descomprometida com a urgência dos problemas. Os moradores, cada vez mais descrentes, recorrem às redes sociais para denunciar buracos, alagamentos, serviços ineficientes e o descaso com o patrimônio ambiental.
A cidade clama por respostas , e recebe apenas silêncio.
O prefeito, por sua vez, parece continuar na bolha confortável das uvas, das músicas e do distanciamento. Uma liderança que se blinda do povo e se cerca de bajuladores não governa: apenas ocupa a cadeira.
Paulista merece muito mais do que isso?