
A trajetória política da vereadora Eugênia Lima (PT), a mulher mais votada da história de Olinda, é um exemplo recente de como o sucesso eleitoral pode se transformar em um fardo quando a construção coletiva cede espaço ao personalismo.
Com mais de 7 mil votos, Eugênia conquistou um feito histórico nas urnas, superada apenas pelo presidente da Câmara, Saulo Holanda (MDB). Foi uma vitória construída a muitas mãos — e, sobretudo, com o decisivo apoio da senadora Teresa Leitão (PT), que não apenas apadrinhou sua candidatura, mas colocou toda sua estrutura e capital político a serviço da campanha.
Teresa abriu portas, cedeu bases, envolveu assessores e mobilizou a classe dos professores, seu reduto mais fiel. Foi um investimento pessoal e político, tratado como o de uma “filha política”, e que resultou em um desempenho surpreendente.
Mas, passado o entusiasmo das urnas, o que se viu foi uma inflexão. A vereadora, em vez de consolidar o grupo que a elegeu, passou a caminhar em outra direção. Fontes internas do partido relatam que Eugênia rapidamente assumiu uma postura de protagonismo individual, tomando para si o crédito da vitória e se distanciando das articulações que lhe garantiram o mandato.
O primeiro sinal dessa mudança veio quando anunciou, internamente, ainda no início do mandato, a intenção de disputar uma vaga na Assembleia Legislativa de Pernambuco (Alepe). Um movimento legítimo, afinal, a política é espaço de ambição, mas que esbarrou em uma realidade: o grupo da Senadora já tinha um nome natural para representar a base da educação, a presidenta do Sintepe, Ivete Caetano, indicada pela própria Teresa Leitão.
Ao ver o espaço ocupado, Eugênia tentou outro caminho: colar-se ao grupo do senador Humberto Costa, apostando em uma nova articulação dentro do próprio partido. Porém, a estratégia parece não ter surtido o efeito esperado. As bases de Humberto, já estruturadas e com nomes definidos para o próximo pleito, resistiram à entrada da vereadora, que passou a enfrentar um cenário de isolamento político.
O desgaste se intensificou com a saída de aliados próximos, assessores e pessoas de confiança, alguns com vínculos afetivos, que migraram para o grupo de Teresa. A perda de quadros experientes fragilizou ainda mais a atuação da parlamentar, que hoje tenta se firmar como voz crítica à atual gestão municipal, mas sem respaldo sólido nem dentro nem fora do partido.
Recentemente, a ausência de Eugênia em um grande evento organizado pela base da senadora, que reuniu cerca de 8 mil pessoas, simbolizou o distanciamento definitivo. Um gesto que fala por si.
O caso de Eugênia Lima expõe uma velha lição da política: ninguém se elege sozinho. O sucesso nas urnas, por mais expressivo que seja, depende de redes, alianças, lideranças e reciprocidade. Quando o ego se sobrepõe à construção coletiva, o isolamento é apenas uma questão de tempo.
No PT, onde a lógica é de grupo e o foco está na reeleição do presidente Lula e na manutenção de uma base coesa, o personalismo tende a ser visto como ruído, e ruído, em política, custa caro.
Eugênia ainda pode reverter o quadro, se optar por reconstruir pontes e compreender que o poder, em partidos estruturados como o PT, é resultado de pactos e não de imposições. Mas, por ora, a vereadora parece viver o preço político de ter trocado o “nós” pelo “eu”.