
O Partido Liberal (PL) de Olinda vive um dos momentos mais desordenados de sua história recente. O que antes se apresentava como a principal força de oposição e voz da direita olindense, hoje parece um barco à deriva e sem comando, sem coesão e sem norte ideológico.
Izabel Urquiza, presidente estadual do PL Mulher e principal nome do partido no município, desapareceu do cenário local. Quem assumiu o protagonismo foi o vereador Alexandre Sarmento, identificado com o discurso mais radical da extrema-direita bolsonarista. No entanto, nem ele, nem Izabel, conseguiram consolidar um projeto político consistente na cidade.
Da expectativa à desarticulação
Na eleição municipal, o PL chegou cheio de expectativas. O partido acreditava ter musculatura suficiente para alcançar o segundo turno e enfrentar o grupo político do então prefeito Professor Lupércio. A campanha de Izabel foi marcada pela rejeição a qualquer aproximação com o PT e pelo discurso anti-esquerda, tônica que unificou parte do eleitorado conservador da cidade.
Mesmo com esse tom aguerrido, o resultado foi abaixo das expectativas. A candidata não conseguiu chegar ao segundo turno, abrindo espaço para adversários que ela própria chamava de “laranjas” e “petistas”. O partido, entretanto, garantiu dois assentos na Câmara Municipal: Jadilson Bombeiro, o mais votado, e Alexandre Sarmento, o mais combativo.
Neutralidade e contradições
No segundo turno, Izabel optou pela neutralidade, lavando as mãos como Pilatos. Mas seus aliados ignoraram a postura oficial e declararam apoio à candidata Mirella Almeida, herdeira política de Lupércio. O curioso é que, até poucos dias antes, os mesmos militantes estavam nas ruas atacando duramente a gestão e o PT, inclusive o irmão de Izabel, o ex-vereador Flávio Urquiza, aderiu aos laranjinhas.
A campanha de Mirella acabou vencendo, e o PL tentou capitalizar parte dessa vitória. O discurso anti-Lula e anti-PT permaneceu até o fim da eleição; inflamado, constante e virulento. Porém, uma vez encerrada a disputa, o fervor ideológico desapareceu.
Do anti-lulismo ao pragmatismo
O que se viu depois foi uma guinada pragmática. Izabel Urquiza, que até então empunhava o estandarte da oposição ferrenha ao governo federal, passou a integrar a gestão do Cabo de Santo Agostinho, prefeitura comandada por um aliado de João Campos e defensor do governo Lula. Assumiu uma secretaria estratégica sob o argumento “técnico”. O anti-lulismo, tão ruidoso nas urnas, foi silenciado.
Em Olinda, o partido mergulhou no silêncio. Nenhuma reunião, nenhuma mobilização, nenhuma estratégia política. O PL virou coadjuvante de uma gestão que, ironicamente, se apoia em partidos da base de Lula, inclusive, contando com milhões de investimentos do governo federal.
Os vereadores seguiram caminhos distintos.
Sarmento, após participar da festa da vitória de Mirella, manteve-se alinhado por pouco mais de cem dias, até romper de forma abrupta. Segundo bastidores, a saída teria sido motivada por exonerações de cargos ligados ao seu grupo político. Desde então, voltou a atacar a gestão, buscando retomar o discurso radical para atender à sua base bolsonarista.
Jadilson Bombeiro, por outro lado, optou por um perfil conciliador. Mantém relação próxima com a prefeita, participa de eventos oficiais e garante benefícios para sua base eleitoral. Conseguiu emendas com a deputada federal Iza Arruda (MDB) e apoio do deputado Francismar Pontes (PSB), demonstrando que, para ele, as alianças falam mais alto que as siglas.
Um partido sem bússola
Um ano após as eleições, o PL de Olinda não realizou uma única reunião partidária. Falta comando, unidade e clareza de propósito. O discurso de “defesa da direita e dos valores conservadores” deu lugar à lógica dos cargos e acomodações políticas.
Izabel, agora confortavelmente instalada em uma prefeitura de esquerda, parece tranquila e adaptada ao novo ambiente. Enquanto isso, Bolsonaro, o “mito” que inspirava a militância, enfrenta a Justiça, usa tornozeleira e vê sua liderança nacional desmoronar.
Sem um líder local e sem um farol ideológico, o PL em Olinda se resume a um retrato da desorganização que assola parte da direita brasileira. O barco está à deriva, o mar revolto e a tripulação confusa.
E, diante do silêncio das lideranças, a pergunta inevitável ecoa: onde foi parar o discurso da extrema-direita radical?
Será que vão apoiar a reeleição de Lula?