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ITAMARACÁ: QUANDO A DEMOLIÇÃO DE UM PRESÍDIO ERGUE UM NOVO FUTURO 

Por: Fabíola Maria Farias

Por: Redação Fama Fonte: Coluna Opinião | Por Fabiola Farias
21/09/2025 às 05h20 Atualizada em 22/09/2025 às 13h25
ITAMARACÁ: QUANDO A DEMOLIÇÃO DE UM PRESÍDIO ERGUE UM NOVO FUTURO 
Foto: Janaína Pepeu/Secom

A cena das paredes do famoso presídio Barreto Campelo, em Itamaracá, vindo abaixo ficará gravada na memória de Pernambuco como um raro momento em que a política rompe com a inércia. Não se tratou apenas de demolir concreto. Ali se derrubaram décadas de dor, medo e abandono, e se ergueu, simbolicamente, a possibilidade de uma nova história para o Litoral Norte.

A decisão da governadora Raquel Lyra surpreendeu pela forma e pelo timing. Sem anúncios ruidosos, acordamos com a notícia de uma megaoperação que, em poucas horas, transferiu todos os detentos para unidades do interior, planejadas para garantir mais dignidade e melhores condições de ressocialização. Era uma promessa repetida por gestões anteriores, mas nunca cumprida. Foi preciso a determinação de uma mulher formada na segurança pública para concretizar o que tantos apenas ensaiaram.

Raquel relembrou, nas redes sociais, os Natais de sua infância, quando o bispo celebrava missa no presídio e sua mãe levava a família para acompanhar. Foi então que uma frase escrita na parede lhe chamou a atenção: “Todo homem é maior do que sua culpa.”

Essa lembrança marcou a menina que, anos depois, se tornaria delegada e, hoje, governadora do Estado. O relato evidencia um ponto essencial: o presídio não era apenas um prédio, mas uma sombra de dor que afastou moradores, turistas e investidores da Ilha,  um espaço que, com o tempo, se tornou sinônimo de medo, perigo e abandono.

Foram muitas lágrimas e emoção estampadas nos rostos dos presentes, da governadora aos maquinistas, passando pela imprensa e pelos policiais. Um instante de silêncio coletivo, quebrado pelo estrondo das paredes ao chão, cravou para sempre esse dia na história de Pernambuco e na memória de todos que testemunharam.

A demolição abre espaço para algo maior que a simples ausência de grades: o resgate da vocação turística da região. Itamaracá volta a ser vista como destino de veraneio, e projetos de turismo náutico ganham força. A vizinha Itapissuma se prepara para um polo gastronômico capaz de ostentar a melhor caldeirada do mundo. Com novos espaços ao ar livre, climatizados e até um píer para embarcações.

Mas este episódio carrega um recado mais amplo. Em tempos de desconfiança na política, a governadora demonstrou que coragem e planejamento podem converter um passivo histórico em ativo social e econômico. Mudanças assim incomodam, e devem incomodar. Afinal, quebrar velhos paradigmas nunca foi exercício de consenso.

Muitas histórias ficaram para trás, assim como objetos deixados pelos detentos que revelam marcas de suas vidas. Esses registros foram feitos por uma repórter fotográfica que, com olhar sensível, capturou esses vestígios para que, no futuro, possam compor uma sala em estilo museu, em algum espaço público, quem sabe?. A ideia é que essas memórias sirvam para relembrar o passado e inspirem aqueles que, em algum momento, possam acreditar que o “crime compensa” e que gestores humanos existem.

E agora, findo o passado, que se renove o futuro. A Ilha de Itamaracá, que por anos foi associada a grades e histórias de sofrimento, tem a chance de se recontar. Cabe ao poder público, aos investidores e à sociedade não desperdiçar a oportunidade que a queda de um presídio simbolicamente abriu: a de reconstruir um território de esperança.

Fabíola Farias é ex-vice-presidente e ex-presidente do Conselho de Direitos Humanos do Recife.

Fotos: Janaina Pepeu/secom

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