Quinta, 16 de Julho de 2026
24°C 25°C
Olinda, PE
Publicidade

BATERIA PATUSCO

Uma Indústria de Cultura, Música e Diversão

Por: Redação Fama Fonte: FAMA cultura
17/01/2024 às 07h48 Atualizada em 01/04/2024 às 23h45
BATERIA PATUSCO

 

A indústria chamada "PATUSCO"

 

Concheci Itacy, fundador do Grupo Patusco, no ano de 1996. Trabalhamos um breve período juntos, mas, desde então, observo o desenvolvimento e desenrolar desta "Grife" de Batuqueiros Olindenses chamada Patusco.

Fazer uma entrevista com Itacy e Deco,  com um olhar de direção, foi uma verdadeira viagem ao tempo. Senti-me como se estivesse na janela de um trem e, a cada relato, via a paisagem de 62 anos de histórias contadas.  Foi uma viagem fantástica, onde pude ver o semblante de lembranças felizes daquele homem, de aparência simples, mas com uma sabedoria de rei, que domina uma nação, "Patusco", com suas ideologias, tranquilidade, mas com firmeza e direção no que quer.

Hoje, aos 81 anos, embora com a mente e corpo de 60, esqueci algumas datas, mas não os fatos relevantes. Mas, ele não tem a dimensão de aonde chegou, um grande industrial que dividiu seu saber criando, formando e conduzindo vários operários da Cultura. Tudo feito com muito amor, união e persistência.

Tudo começou em 1962, numa brincadeira de carnaval, aos 19 anos, noivo do seu grande amor dona Sandra, e um pequeno grupo de amigos que resolveram fazer uma fantasia de carnaval, toda de plástico  verde. Foram os pioneiros neste quesito.

Nos anos seguintes, as fantasias eram criadas, com foco nas sátiras políticas, pelo momento difícil, mas as fantasias mostravam a realidade do que o "povo" pensava.

“Só não havia coragem de falar”, diz Itacy, sempre preocupado com as questões sociais, desigualdades e política. Eram tempos difíceis e ele, numa auditória num órgão público do interior, saiu fugido numa ambulância, sob ameaça, por haver encontrado irregularidades.

Foi no carnaval que ele encontrou o melhor formato de expressar as sátiras com cartazes, carros alegóricos construídos por eles. Até uma vaca, em tamanho natural foi colocada nas ladeiras de Olinda. Com isso, o grupo de amigos, adeptos ao formato, foi aumentando e viraram páginas de jornais


Mas foi no ano de 1972, já com um grupo maior, com uma fantasia de pássaros, que houve um convite da Empetur para participar do concurso de fantasias, mas para participar, uma das exigências era "um  nome para a fantasia" e sem nome, recorreram ao  antigo dicionário Aurélio para pesquisar e  surgiu a palavra 'Patusco" que significa "aquele que gosta de brincar, de se divertir e divertir os outros”. Com o nome decidido, participaram do concurso e foram os campeões.

Com o dinheiro do prêmio, compraram os primeiros instrumentos e começaram a ensaiar, sem saber tocar, os ritmos de samba.

Com as mudanças do carnaval de Olinda e o aumento de fluxo de pessoas, passou a ficar difícil o desfile nas ladeiras estreitas com carros alegóricos, grandes arranjos de cabeça e demais adereços utilizados. O adeptos foram crescendo, tentado aprender a tocar os ritmos de samba que em 94 surgiu a necessidade em focar na Bateria Patusco.

Com os desfiles cada vez maiores, mas ainda no formato "diversão" , na Copa de 2002 um amigo com um bar na Rua do Sol os convidou para "animar" o jogo e em troca daria cervejas ao tocadores, "por pura diversão".

A coisa foi aumentando.

Quando o Olinda Beer convidou oficialmente para tocar no palco oficial, foi então que começou a primeira organização da "indústria" de batuqueiros. Foram 43 tocadores oficiais, produção e lógico, com toda essa energia e garra só poderia dar "sucesso total".

Os convites foram aumentando e isso gerou a necessidade de profissionalizar aquela "coisa" que já tomava uma proporção gigantesca. 

Foi no ano de 2002 que a demanda aumentou e  o Patusco criou  o formato "banda", um grupo menor, com profssionais já treinados, recebendo pelo trabalho e foram os pioneiros a dar um molho nas cerimônias mais tradicionais como casamentos, formaturas, 15 anos etc e desde então, não pararam mais.

Itacy, nascido e criado no bairro de Santa Tereza, entrada da Ilha do Maruim, sempre priorizou a comunidade, tanto ensaiando e profissionalizando, como com ações sociais. Então,  criou a Patusquinho, para as crianças da comunidade como incentivo e ação social.

Passou a doar o sopão, todas as quartas, fazer bazar, festa das crianças, com brinquedos, pula-pula, mais do que isso, nos ensaios, em sua sede, gerando empregos e renda para os pequenos empreendedores (ambulantes) que esperam o domingo para colocar comida no prato durante a semana. 

A indústria Patusco, já formou milhares de tocadores e muitos desses, formaram seus próprios grupos, das 16 baterias (como chamam)  existentes em Olinda, 13 foram alunos da Patusco e com isso, geram mais tocadores, mais empregos, mais renda, mais possibilidade para eles deslumbrarem  novos horizontes,  além da comunidade.

Imaginem, quantos sobrevivem disso e mudaram sua realidade de vida e da vida de seus familiares.

Itacy,  que tem a família toda nascida e envolvida nesta produção, sempre ladeado e incentivado, apoiado dor Dona  Sandra, a noiva  de 1962, e hoje esposa há 60 anos, passou o bastão do comando para Deco, seu filho mais velho, com a veia de produtor e empreendedor.

Foi de Deco a ideia da criação da Bateria Patusco em formato menor, para pequenos eventos e que hoje  conduz o exército cultural com vários segmentos, tendo médicos, juízes, advogados, delegados e simplesmente, moradores da comunidade, que querem divertir e se divertir, relaxar. 

A cultura, passando de geração a geração e sendo preservada, vista, direcionada. Não é à toa que o carnaval em Olinda tornou-se mundialmente famoso e recebe turistas do mundo todo, gera vários empregos, renda de diversas formas, diretas e indiretas, do ambulante, ao reciclador, ao artista, ao decorador, do aluguel de imóveis à venda de fantasias.

São diversos empreendimentos e a Patusco deve ser reverenciada por ter sido ousada, visionária, pioneira neste formato que ajudou este desenvolvimento e hoje vai para as ruas no carnaval com cerca de 300 pessoas, levantando a multidão ao redor, a bateria que faz ferver o sangue e acelerar o coração por onde passa.

Para encerrar, perguntei a Itacy quais palavras ele deixava como um grande homem de sucesso. Ele responde: “Além da inclusão, liberdade, respeito e amor, tema deste ano do Patusco,  deixo como recado: seja humilde, queira fazer  o melhor  de si. Não é apenas mostrar o melhor: se fizeres o melhor, serás o melhor em tudo”.

Humildade,  pé no chão e sucesso, é assim que traduzo Itacy Vasconcelos Guimarães, nascido em 1942, filho de D. Lourdes parteira e Sr. Antônio da Silva Mattos Peixoto, casado com Sandra  de Oliveira Guimarães, 77 anos,  5 filhos, 5 netos e 3 bisnetos e centenas de filhos batuqueiros espalhados  por aí,  mais de mil encantando e fervendo as ladeiras de Olinda!

* O conteúdo de cada comentário é de responsabilidade de quem realizá-lo. Nos reservamos ao direito de reprovar ou eliminar comentários em desacordo com o propósito do site ou que contenham palavras ofensivas.
500 caracteres restantes.
Comentar
Mostrar mais comentários
Lenium - Criar site de notícias