Sou filho da democracia. Carrego comigo a memória, as marcas e as dores de uma família perseguida pela ditadura militar. Uma história atravessada pela prisão, pelo exílio e pelo desaparecimento do meu tio, Fernando Santa Cruz, vítima da repressão política durante um dos períodos mais sombrios da história brasileira.
Fui criado por minha avó, Elzita Santa Cruz, com quem morei por mais de três décadas. Mais do que compartilhar a vida com ela, acompanhei de perto sua incansável luta por memória, verdade e justiça. Vi a dor de uma mãe que jamais desistiu de procurar o filho desaparecido. Uma mulher que transformou o sofrimento em resistência e a saudade em uma luta permanente para que o Brasil não apagasse sua própria história.
A dor de minha avó também se tornou minha. Sua luta passou a fazer parte de quem sou. Foi a ela que prometi jamais permitir que nossa história fosse esquecida. Foi também dessa experiência que nasceram as razões para escolher o Direito e compreender a advocacia não apenas como profissão, mas como instrumento de defesa dos direitos, das liberdades e da dignidade humana.
Por isso, minha defesa da democracia não é circunstancial. Não nasceu de uma conveniência eleitoral, de uma estratégia partidária ou de um cálculo político. É uma convicção construída dentro de casa, alimentada pela memória familiar e fortalecida pela consciência de que nenhuma sociedade pode tratar a liberdade como uma conquista definitiva.
A democracia exige vigilância. O Estado Democrático de Direito precisa ser defendido todos os dias, sobretudo quando discursos autoritários tentam relativizar a gravidade das violações do passado ou transformar a memória histórica em algo descartável.
Quem conhece a dor de uma família atingida pela ditadura sabe que o autoritarismo nunca é apenas uma página nos livros de História. Ele invade casas, separa famílias, destrói vidas e deixa feridas que atravessam gerações.
É por essa mesma consciência que voto em Lula. Não sou beneficiário do Bolsa Família, do Minha Casa, Minha Vida, do Pé-de-Meia, da Farmácia Popular ou do Gás do Povo. Ainda assim, defendo políticas públicas dessa natureza porque compreendo que uma sociedade justa não pode ser construída apenas a partir dos interesses individuais.
Não preciso receber diretamente um benefício para reconhecer sua importância na vida de milhões de brasileiros. A política pública deve ser avaliada também por sua capacidade de enfrentar desigualdades, ampliar oportunidades e assegurar condições dignas de vida à população que mais precisa.
A solidariedade não exige que estejamos pessoalmente na mesma situação de quem necessita de apoio. Exige que sejamos capazes de reconhecer a realidade do outro e compreender que o bem-estar coletivo também diz respeito a cada um de nós.
Meu posicionamento político, portanto, está ligado a uma visão de sociedade. Uma visão que reconhece a importância das instituições democráticas, dos direitos sociais e da responsabilidade do poder público diante das desigualdades brasileiras.
Não ignoro as diferenças políticas, nem considero que a democracia deva eliminar o debate ou o contraditório. Ao contrário: a democracia pressupõe divergências, eleições livres, liberdade de expressão e respeito às instituições. O que ela não pode admitir é a naturalização do autoritarismo ou a banalização das violações de direitos humanos.
Conheço, pela história da minha família, as consequências de viver sob uma ditadura. Sei que a ausência de liberdade não é uma abstração. É uma realidade que pode atingir qualquer família, independentemente de suas convicções, quando o poder deixa de respeitar os limites impostos pela democracia.
É por isso que não trato o risco autoritário como uma questão menor. A memória de Fernando Santa Cruz e a trajetória de resistência de Elzita Santa Cruz me ensinaram que esquecer também pode significar abrir espaço para que os erros do passado voltem a acontecer.
Não escrevo movido pelo desejo de alimentar o ódio, mas pela responsabilidade de afirmar aquilo em que acredito. A memória não deve servir para perpetuar ressentimentos; deve ajudar a construir um país em que nenhuma família precise experimentar novamente a perseguição, o desaparecimento de um ente querido ou o silenciamento imposto pelo Estado.
Sou filho da democracia porque conheço o preço que uma família pode pagar quando ela é destruída.
Minha história tem nome, rosto e memória. Tem a ausência de Fernando Santa Cruz e a resistência de Elzita Santa Cruz. Tem uma promessa que permanece viva: não permitir que o esquecimento vença a verdade.
Por isso, reafirmo minhas convicções e meu compromisso com as liberdades democráticas. Meu lado é o da democracia, dos direitos humanos, da justiça social e do respeito à dignidade de cada pessoa.
A história da minha família não me permite tratar a ditadura com indiferença. E a minha consciência não me permite permanecer em silêncio diante de qualquer ameaça às liberdades que conquistamos.
Sou filho da democracia.
DITADURA NUNCA MAIS! DEMOCRACIA SEMPRE!
Guto Santa Cruz é advogado e sobrinho de Fernando Santa Cruz, desaparecido político durante a ditadura militar brasileira. Em Olinda, o nome de Fernando Santa Cruz homenageia o teatro localizado no Mercado Eufrásio Barbosa, espaço dedicado à cultura e à memória.