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O NORDESTE SÓ ALCANÇARÁ SEU POTENCIAL QUANDO A LOGÍSTICA DEIXAR DE SER PROMESSA E VIRAR PRIORIDADE 
Artigo Opinião - Por: Guilherme Magalhães Amorim .
03/06/2026 15h19 Atualizada há 1 mês
Por: Redação Fama Fonte: redação famamax
Foto: Divulgação

Salgueiro: O Nordeste brasileiro convive há décadas com uma contradição difícil de justificar. Somos uma região que abriga cerca de 27% da população do país, possui enorme potencial produtivo, riquezas naturais, vocação industrial, agrícola e turística, mas ainda participamos com apenas cerca de 14% do Produto Interno Bruto nacional. Não se trata de falta de capacidade ou de oportunidades. O problema histórico sempre esteve na infraestrutura necessária para transformar potencial em desenvolvimento.

Nesse contexto, três ativos se destacam como pilares de uma nova fase econômica para a região: o nó logístico de Salgueiro, o Porto de Suape e a Ferrovia Transnordestina. Juntos, eles formam um sistema capaz de integrar o interior ao litoral, reduzir custos, ampliar mercados e criar condições para que o Nordeste ocupe o espaço econômico compatível com sua população e sua importância estratégica para o Brasil.

Salgueiro é hoje muito mais do que uma cidade do Sertão pernambucano. Sua localização privilegiada, no cruzamento de importantes rodovias e na rota da Transnordestina, transformou o município em um dos principais centros logísticos do interior nordestino. O crescimento da cidade demonstra, na prática, como a infraestrutura é capaz de modificar realidades econômicas. Empresas se instalam, empregos são criados, investimentos chegam e cadeias produtivas ganham eficiência.

Porém, também é em Salgueiro que percebemos um dos maiores desafios do desenvolvimento brasileiro: planejar o crescimento sem garantir que a infraestrutura acompanhe esse avanço. Rodovias deterioradas, capacidade limitada de armazenagem, escassez de mão de obra especializada e excesso de burocracia são obstáculos que reduzem a competitividade e impedem que todo o potencial da região seja plenamente aproveitado.

No litoral, o Porto de Suape representa a principal porta de entrada e saída do Nordeste para o mercado global. Sua estrutura moderna e sua localização estratégica o transformaram em referência nacional. O crescimento contínuo da movimentação de cargas comprova a relevância do complexo para a economia regional.

Ainda assim, é impossível ignorar problemas que afetam diretamente a competitividade das empresas. Custos operacionais elevados, demora na liberação de cargas, limitações de capacidade em períodos de pico e gargalos nos acessos rodoviários mostram que eficiência logística não depende apenas da existência de grandes obras, mas também da qualidade da gestão e da capacidade de adaptação às novas demandas do mercado.

Entre Salgueiro e Suape está a Ferrovia Transnordestina, talvez o projeto de infraestrutura mais transformador para o Nordeste nas últimas décadas. A ferrovia representa a oportunidade de reduzir a dependência do transporte rodoviário, diminuir custos logísticos, ampliar a competitividade das exportações e integrar regiões historicamente afastadas dos grandes centros econômicos.

Entretanto, a própria história da Transnordestina também simboliza um dos maiores problemas da infraestrutura brasileira: a incapacidade de concluir projetos estratégicos dentro dos prazos previstos. Anos de atrasos, interrupções, revisões de cronogramas e dificuldades de gestão aumentaram custos e adiaram benefícios que poderiam estar sendo sentidos pela população há muito tempo.

Apesar desses desafios, não há dúvidas de que a direção é correta. Os resultados já observados demonstram que a logística é uma das ferramentas mais eficazes para combater desigualdades regionais. Quando o transporte se torna mais eficiente, produtores vendem melhor, empresas investem mais, empregos são gerados e consumidores têm acesso a produtos mais baratos e de melhor qualidade.

O futuro econômico do Nordeste passa necessariamente pela consolidação desse corredor logístico. Mas isso exigirá mais do que discursos e anúncios. Será preciso concluir obras, recuperar rodovias, modernizar portos, qualificar trabalhadores e reduzir a burocracia que ainda afasta investimentos.

A logística não é apenas um tema técnico. Ela é uma política de desenvolvimento. É o instrumento que conecta produção, emprego, renda e qualidade de vida. E, para o Nordeste, a integração entre Salgueiro, Suape e Transnordestina representa uma oportunidade histórica de transformar potencial em prosperidade.

Os desafios permanecem grandes. Mas os benefícios de superá-los serão ainda maiores. O Nordeste já mostrou que tem capacidade para crescer. Agora precisa garantir que a infraestrutura acompanhe esse crescimento e deixe de ser um obstáculo para se tornar, definitivamente, o caminho do desenvolvimento.

Guilherme Magalhães Amorim é professor especialista da UPE Campus Salgueiro, coordenador da Comissão de Logística do CRA-PE, membro da Associação Nordestina de Logística (Anelog) e da Câmara Setorial de Logística da ADEPE.