Há vinte anos, a Fliporto realizou o improvável: criou um festival literário em que o português não é apenas idioma, mas destino comum. No Recife, esse porto de águas mestiças, a literatura tornou-se uma forma de cidadania. Por isso, participar da Fliporto é mais do que frequentar um evento, é integrar um gesto político e poético que reafirma a convicção de que as palavras ainda podem transformar o mundo.
A língua portuguesa é hoje um dos maiores territórios partilhados sem fronteiras. São mais de 260 milhões de falantes distribuídos por quatro continentes, unidos por algo que ultrapassa a gramática: a emoção. Falamos uma língua nascida do encontro e sobrevivente de todos os desencontros; do latim dos soldados, da ciência árabe, das vozes bantas, do tupi que ensinou o Brasil a cantar. Uma língua mestiça, viva, contraditória e, justamente por isso, profundamente humana.
Ao longo da história, alguns autores expandiram esse território simbólico:
Camões deu-nos a travessia;
Pessoa, a introspeção;
Sophia, a transparência;
Mia Couto, a metamorfose;
Pepetela, a ironia e a justiça;
Ondjaki, a ternura como resistência;
Conceição Evaristo, o corpo e a memória das vozes silenciadas;
Guimarães Rosa, o sertão que espelha o infinito.
Cada um deles alargou as margens da língua, fazendo dela um exercício de reparação e de futuro.
Hoje, falar português é também um ato de resistência. Num mundo governado por algoritmos e inteligências artificiais que pensam em inglês, francês ou chinês, afirmar o nosso idioma é reivindicar humanidade. A verdadeira cidadania da língua exige presença — nos livros, nas redes, nas escolas e nas próprias máquinas. É garantir que o português continue a pensar o mundo à sua maneira, com poesia, emoção e justiça.
Essa cidadania é igualmente um gesto de descolonização. É a Europa olhando o Sul sem nostalgia e sem soberba. É reconhecer que feridas históricas ainda sangram, mas que delas pode brotar uma nova ética da igualdade. Reparar começa pela forma como nomeamos o outro, e continua no ato essencial de escutar: escutar o Brasil profundo, a África pulsante, a Ásia de sotaques suaves. Escutar o que a língua ainda tem a nos ensinar sobre convivência.
A Fliporto chega aos seus vinte anos no momento exato em que precisamos voltar a acreditar na palavra como último depósito de humanidade. O festival, nascido do sonho de Antônio Campos, mantém vivo o diálogo entre gerações e geografias. Na Fliporto, a língua portuguesa é casa, porto e travessia.
Por isso, quem ama a literatura, e acredita no futuro, tem encontro marcado com o Recife neste novembro.
A Fliporto não é apenas um evento: é um lembrete luminoso de que a língua portuguesa é o nosso mar comum. E que navegar por ela continua sendo uma das mais belas formas de liberdade.
Edição: FAMA