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ENTREVISTA EXCLUSIVA| ANTÔNIO CAMPOS — 20 ANOS DA FLIPORTO 
Fliporto celebra duas décadas de existência iniciando o ciclo comemorativo com uma edição portuguesa e prepara a Fliporto Brasil e a Fliporto Arte, consolidando-se como ponte cultural entre o Brasil, o mundo lusófono e o diálogo entre as artes.
03/11/2025 12h12 Atualizada há 8 meses
Por: Redação Fama Fonte: Por: Fabíola Maria Farias - FAMA
Divulgação

A Fliporto — Festa Literária Internacional de Pernambuco — chega aos 20 anos em 2025 reafirmando seu papel como um dos maiores eventos literários do país. Para marcar as duas décadas, o festival realizou, pela primeira vez, uma edição em Portugal, em parceria com a Fundação Livraria Lello, e prepara uma grande celebração no Recife, em novembro de 2025.

Em entrevista exclusiva, o escritor, advogado e produtor cultural Antônio Campos, fundador da Fliporto, faz um balanço dessas duas décadas e revela os próximos passos do projeto.

A Fliporto celebra 20 anos em 2025. Que balanço faz dessas duas décadas e como define o impacto do festival na cena cultural brasileira?

A Fliporto nasceu, em 2005, com o propósito de celebrar a literatura e o livro como instrumentos de transformação social. Vinte anos depois, posso afirmar que o festival se consolidou como o maior evento literário do Nordeste e um dos mais influentes do Brasil.

Foram duas décadas de escuta e partilha com autores, leitores, professores e jovens de diferentes origens. A Fliporto tornou-se um verdadeiro ecossistema cultural, um movimento plural por vocação, onde a literatura dialoga com a arte, a tecnologia e a cidadania.

Seu impacto é visível tanto na formação de novos leitores quanto na valorização de vozes periféricas e da juventude, que hoje têm espaço próprio na programação.

A edição de 2025, no Recife, apresentará eixos como a Fliporto Arte e a Fliporto Cordel. Como essa diversidade reflete a essência do festival?

A diversidade é a alma da Fliporto. Desde as primeiras edições, acreditamos que a literatura precisa dialogar com o seu tempo.

A Fliporto Arte já nasce como uma grande feira de artes visuais, e a Fliporto Cordel é uma homenagem à poesia popular e à literatura de cordel. Queremos falar às novas gerações, aproximar o público da leitura e, sobretudo, mostrar que a literatura não é uma ilha: ela é o centro de um arquipélago onde cabem todas as expressões culturais.

Pela primeira vez, a Fliporto atravessou o Atlântico e chegou a Portugal. O que representou essa estreia europeia?

Levar a Fliporto a Portugal foi um sonho antigo, concretizado de forma natural no ano em que celebramos 20 anos. Foi um gesto simbólico e afetivo: Portugal é o berço da nossa língua e um território de encontro entre tradição e modernidade.

A parceria com a Fundação Livraria Lello, ícone mundial do livro, deu base sólida para expandir esse diálogo lusófono. Somos muito gratos à acolhida da instituição.

Essa edição portuguesa foi um passo decisivo na internacionalização do festival e uma homenagem à língua que nos une. Nosso próximo objetivo é viabilizar uma Bienal da Lusofonia, reunindo festivais e feiras literárias de diferentes países de língua portuguesa.

O Mosteiro de Leça do Balio foi o palco da Fliporto Portugal. Como surgiu a parceria com a Fundação Livraria Lello e por que Matosinhos foi escolhido como destino?

A Fundação Livraria Lello tem uma missão que se alinha perfeitamente à da Fliporto: promover a literatura, a cultura e o pensamento crítico. Quando conversei com sua presidente, Rita Marques, percebemos imediatamente uma sintonia de valores.

O Mosteiro de Leça do Balio, além da beleza arquitetônica e do valor patrimonial, é um espaço de memória e de futuro, parte do Caminho de Santiago. É o cenário ideal para acolher a Fliporto Portugal, que busca justamente unir o passado e o amanhã da língua portuguesa.

Matosinhos, com sua energia cultural e ligação ao Porto, é um território fértil para esse diálogo.

A entrega dos Prêmios Literários Guerra Junqueiro a Dulce Maria Cardoso e Amélia Dalomba marcou a edição portuguesa. Qual a importância dessa valorização?

Foi um dos momentos mais simbólicos da Fliporto Portugal. Dulce Maria Cardoso e Amélia Dalomba representam duas vozes fundamentais da literatura contemporânea em língua portuguesa,  uma de Portugal, outra de Angola.

Celebrar suas obras é também prestar tributo à diversidade do nosso idioma. A Fliporto sempre defendeu que a lusofonia é um território cultural sem fronteiras. Valorizar essas autoras é afirmar que a literatura lusófona é viva, múltipla e essencial para o entendimento entre os povos que partilham uma mesma língua.

Sua trajetória pessoal está ligada ao universo dos livros. Como o escritor e o gestor se entrelaçam na construção da Fliporto?

Costumo dizer que sou “filho de escritor e nasci entre livros”. Essa herança do meu pai, o escritor Maximiano Campos, moldou a minha relação com a palavra.

Como autor de 17 livros publicados e 15 inéditos, aprendi que a literatura é tanto introspecção quanto partilha. A Fliporto nasceu desse impulso: o desejo de criar um espaço onde o leitor se encontre com o autor ,  e ambos com a sociedade.

A minha experiência como advogado e gestor cultural também contribuiu muito, pois a Fliporto exige tanto sensibilidade artística quanto capacidade de organização e diálogo institucional. É uma síntese da minha vida,  o direito, a política e a literatura convergem em um projeto coletivo de cultura.

Depois dessa estreia europeia, que caminhos imagina para o futuro da Fliporto? Há planos de novas edições fora do Brasil?

Sim. A ideia é dar continuidade a esse movimento. Portugal foi o primeiro passo, mas queremos que a Fliporto se torne um festival itinerante dentro do universo lusófono.

Sonhamos com edições em Angola, nos Açores, em Cabo Verde e em Moçambique, além de regressar a Portugal com regularidade. Acreditamos que a língua portuguesa é uma casa comum, e a Fliporto pode ser uma de suas salas mais vivas.

O futuro será de cooperação e continuidade, unindo instituições, leitores e criadores numa grande rede de cultura, memória e inovação.

E o que esperar da 20ª edição brasileira, em 2025?

Agora, é o momento de realizar a 20ª Edição Brasileira, entre 13 e 16 de novembro de 2025, reunindo a Fliporto Arte e a Fliporto Literária — dois grandes eventos que dialogam entre si e celebram a força da cultura pernambucana, brasileira e lusófona.

Será uma edição histórica, marcada pela celebração das artes, do livro e da palavra. Encerra Antônio Campos.