Opinião por FAMA - Fabíola Maria Farias
Conheço Adilson há cerca de 20 anos. Fomos apresentados por uma amiga jornalista. Desde então, acompanhei de perto a trajetória de um homem que, com sabedoria e generosidade, ajudou a moldar a história política de Pernambuco.
Naquele tempo, Adilson já estava mergulhado na política a décadas, e, atuando na campanha de Eduardo Campos ao Governo do Estado, que, em seus primeiros passos, registrava apenas 4% nas pesquisas. Com a habilidade de um verdadeiro mestre, Adilson conseguiu, em menos de uma semana, reverter um palanque de oposição ao qual eu fazia parte. Era o início de uma amizade e de uma admiração que só cresceu com o tempo.
Passado dos 80 anos, o corpo já não acompanha o ritmo de antes, mas a mente continua brilhante, ágil, perspicaz, dessas que fazem inveja a qualquer estrategista político. Com uma trajetória marcada por lutas, superações e lealdades, Adilson sempre defendeu as chamadas “minorias”, que, na verdade, representam a maioria trabalhadora deste Estado.
Ele testemunhou e participou de capítulos fundamentais da história política brasileira: enfrentou a Ditadura Militar com coragem, comemorou a redemocratização e entoou o hino que ecoa até hoje na memória popular; “Arraes de novo, com a força do povo.”
Das origens humildes ao coração do poder
Adilson iniciou sua jornada como contínuo da Assembleia Legislativa de Pernambuco (Alepe), um dos centros do poder estadual. Ali, junto ao colega Jarbas Vasconcelos, o então recepcionista, passava horas conversando sobre política, trocando ideias e alimentando sonhos de transformação social.
Ainda jovem, chegou a organizar um comício em Olinda, nos Quatro Cantos, ao lado de Eufrásio Barbosa e Marcos Freire, em tempos difíceis, quando a coragem de se posicionar custava caro e nem o povo podia se reunir livremente.
Foi um dos fundadores do MDB, deixando a família para se lançar pelas estradas de Pernambuco: cruzou o sertão empoeirado, o agreste castigado pela seca e o litoral sul banhado pelo mar e ladeado por matas. Assim ajudou a erguer, tijolo por tijolo, o partido que viria a se tornar um dos pilares da esquerda brasileira.
O encontro com Arraes e a paixão pela política popular
Mas foi ao conhecer Miguel Arraes que Adilson se apaixonou de vez pela política e pelo povo. Arraes era o “ás” da política pernambucana, e Adilson se dedicou integralmente à sua causa.
Seguindo o exemplo do mestre, ele aprendeu que o verdadeiro poder nasce nas feiras, nas ruas, nas conversas com os trabalhadores rurais, os comerciantes e os senhores de engenho, onde a realidade é dura, mas a esperança é viva.
Participou da volta de Arraes do exílio, de seus governos e também do governo de Eduardo Campos. Tornou-se um articulador respeitado por todas as correntes políticas, um verdadeiro arquiteto, engenheiro e doutor da política pernambucana, conhecido pela habilidade de unir, dialogar e construir consensos.
Um legado de sacrifício e amor ao povo
Sua trajetória pública foi marcada por sacrifícios pessoais. Adilson abdicou do convívio familiar para perseguir um sonho, não um sonho próprio, mas coletivo: o de transformar a vida dos mais simples.
Quis ver um Pernambuco mais justo, com oportunidades de estudo, trabalho e cidadania. E ajudou a construir, com dedicação, as bases desse sonho para as gerações que vieram depois.
Hoje, seu legado permanece vivo, nas memórias, nas casas legislativas, na Alepe, nos partidos e, sobretudo, nos corações de quem o admira.
Com mais uma homenagem surgindo em Camaragibe, terra de sua esposa, Fabiana Moura, é mais do que justo reconhecer publicamente a importância de um homem que ajudou a formar gerações de políticos e líderes. Até mesmo quando trabalhava como auxiliar de serviços gerais no “Buraco Frio”, Adilson aprendeu com o povo e os políticos, o que nenhuma faculdade ensina: escutar, compreender e agir.
O arquiteto, engenheiro e doutor da política pernambucana.
Que todas as casas legislativas de Pernambuco possam prestar, em vida, as merecidas homenagens a um homem que dedicou sua história a transformar a história do Estado, que os vereadores se inspirem em Toinho (Republicanos), para multiplicar as homenagens.
Segue o depoimento pessoal do Mestre José Nivaldo Junior para o blog "O Poder". De uma década anterior ao FAMA.
Conhecemos, Leonardo Cavalcanti e eu, Adilson e seu então parceiro Bezerrinha altas horas de um dia de semana. Início de 1973. Na época, nós dois, mais Dionary Sarmento, éramos os diretores do legendário jornal 'Reflexo', da Faculdade de Direito do Recife. A primeira publicação estudantil, após o AI5 e a Uniao dos Estudantes de Pernambuco ser fechada, a circular, sem se submeter à censura prévia imposta pela ditadura. Pois bem, rodar o 'Reflexo', em mimeógrafo a tinta, com melhor qualidade, era uma novela e uma aventura. Procuramos Jarbas Vasconcelos, então presidente do MDB, o único partido de oposição ao governo militar. Jarbas recomendou procurar Adilson, tarde da noite, na sede do partido, na Avenida Conde da Boa Vista. Nos esgueiramos nas sombras, batemos na porta. Abriu uma fresta, nos identificamos, entramos rapidamente. Era Adilson.
Saímos com a primeira de algumas edições do jornal rodadas naquelas circunstâncias. Ou seja, admiramos Adilson à primeira vista. A longa estrada desde então só fez acrescentar os sentimentos positivos e aprofundar uma amizade, quase sempre sem convivência salvo em ambientes políticos, mas emoldurada por um profundo respeito a um ser humano extraordinário.
Atuou quase sempre nos bastidores, até fugindo dos holofotes. Cumprindo missões partidárias e políticas com a dedicação de um apóstolo. Colocando os interesses pessoais sempre em segundo plano. Merece ser reconhecido como cidadão de camaragibe, do Brasil, do planeta inteiro. Como bem defibiu Brecht, os seres humanos especiais lutam a vida inteira.
Perfil retirado dos nossos arquivos
Adilson Gomes Silva, pernambucano de Moreno, filho de Milton Gomes Silva e Iracema Gomes Silva, casado, pai de dois filhos e avô de sete netos, nasceu no dia 16 de outubro de 1944. Com uma infância sofrida, agravada com o falecimento de sua genitora quando ainda tinha sete anos de idade, serviu ao Exército brasileiro no 14º Regimento de Infantaria, em Jaboatão dos Guararapes, chegando ao posto de Cabo.
Nos momentos difíceis
O destaque em sua atuação na Câmara Municipal do Moreno faz com que, nas eleições de 1976, seja convocado pelo partido para disputar a eleição de Prefeito por uma das sub-legendas. Entretanto, os nomes do MDB não obtiveram êxito.
Campanhas democráticas
Com ativa presença na formação do MDB, começa a percorrer o estado em companhia das principais lideranças de oposição ao regime golpista. Integra as coordenações das campanhas majoritárias de José Ermírio de Morais (senador, 1970), Marcos Freire (senador, 1974) e Jarbas Vasconcelos (senador, 1978).
Arraes e Marcos Freire
Em 1979, participa da organização da recepção ao ex-governador Miguel Arraes após o exílio. O comício, no Largo de Santo Amaro, ocorrido no dia 16 de setembro, intitulado ArraesTaí, atraiu mais de 50 mil pessoas. Em 1980, o MDB passa a se chamar PMDB (com seu registro definitivo sendo concedido em junho de 1981). No ano seguinte, Adilson participa das campanhas de Marcos Freire (governador) e Cid Sampaio (senador), sacrificando sua tentativa de retorno à vereança de Moreno naquela eleição vinculada. Nesta eleição, finalmente, a oposição municipal chega ao poder em Moreno através do professor Edvard Bernardo. Adilson Gomes é nomeado para o cargo de Assessor Adjunto do Gabinete do Prefeito, onde é instalada uma mesa de trabalho ao lado da de Edvard, para marcar a importância do aliado no processo histórico da cidade.