A relação entre a Assembleia Legislativa de Pernambuco (ALEPE) e o Governo do Estado atingiu um novo patamar de tensão. O embate, que começou com trocas de farpas públicas entre a governadora Raquel Lyra (PSD) e o presidente da Casa, Deputado Alvaro Porto (PSDB), agora envolve órgãos de controle como o Tribunal de Contas do Estado (TCE), gerando preocupações sobre os limites entre fiscalização e disputa política.
Do plenário às redes sociais
A crise institucional se agravou após declarações da governadora em um evento de filiação partidária do PSD, explanando a necessidade do empréstimo solicitado na Casa. O presidente da ALEPE reagiu com dureza, e com direito a meme nas redes sociais, marcando mais um capítulo do confronto que já transbordou da tribuna para o campo virtual.
Ao mesmo tempo, a gestão estadual tenta manter o foco em obras prioritárias, como a requalificação da BR-232, fundamental para o escoamento de mercadorias, o turismo e o deslocamento entre o interior e a capital. O trecho da Serra das Russas, conhecido no passado como "corredor da morte", um dos principais trechos que carece de melhorias estruturais urgentes, a última ocorrida foi no governo Jarbas Vasconcelos.
Decisão do TCE acirra o cenário
A tensão se intensificou quando, no dia 19 de junho, o TCE suspendeu, por decisão monocrática, toda a publicidade institucional do Governo do Estado. A representação partiu de um advogado que assessora o deputado Rodrigo Farias (PSB), vice-presidente da ALEPE, que teria sido eleito, segundo fontes da própria sigla, sem base eleitoral própria e depende politicamente do partido, como outros que estão no poder.
A decisão gerou surpresa pela rapidez com que foi acolhida, contrastando com a tradicional morosidade da Justiça. Mais intrigante ainda foi o fato de o conselheiro que assinou a medida ser primo do advogado autor da ação, e o conselheiro ser ex-advogado da Frente Popular de Pernambuco, grupo político do qual o prefeito João Campos se apresenta como candidato ao governo do estado em 2026.
Questionamentos e suspeitas
A suspensão da publicidade, mesmo após o contrato já ter sido licitado e aprovado nas instâncias legais, levanta suspeitas sobre a real motivação da ação. A coluna de Lauro Jardim, no jornal O Globo, questionou o momento e as conexões por trás da medida. (Ver ao final).
Para setores do governo e analistas políticos, o episódio representa um possível uso institucional para minar a visibilidade da gestão Raquel Lyra, no momento em que aumentam a exposição com as entregas realizadas pelo governo do estado. Seria uma tentativa política de esvaziar a mídia do governo? Ou um jogo de forças para manter o controle sobre as estruturas de poder?
Risco à democracia
O que está em jogo vai além de contratos e obras. Trata-se do respeito à vontade popular expressa nas urnas e da preservação da autonomia entre os poderes. O possível uso político de órgãos fiscalizadores compromete a confiança nas instituições e prejudica a governabilidade.
Enquanto o “guerra fria” entre ALEPE e o governo se intensifica, a população assiste a uma queda de braço que desvia o foco das pautas urgentes do estado. Ao fim, é o desenvolvimento de Pernambuco que fica travado, e o povo, mais uma vez, é quem paga a conta.
Segue a Coluna de Lauro Jardim, no jornal O Globo.
Por João Paulo Saconi
11/07/2025 17h18
Na virada do mês, a 1ª Câmara do Tribunal de Contas de Pernambucomanteve, por unanimidade, a suspensão de contratos de publicidade do governo Raquel Lyra. Em dez anos, os acordos (agora interrompidos) pagariam R$ 1,2 bilhão a quatro agências de publicidade, dedicadas à divulgação institucional da administração pernambucana. Beleza.
Só que, desde que a votação aconteceu, o voto de um dos conselheiros tem sido esquadrinhado pelo grupo de Raquel. Trata-se de Carlos Neves, vice-presidente do TCE, que votou pela suspensão.
Na Corte de Contas desde 2019, Neves é primo do autor das denúncias que embasam o caso contra a gestão de Raquel, Pedro Queiroz Neves. O laço de parentesco entre os dois tem sido aventado, no entorno da governadora, como possível motivo para um pedido de suspeição do conselheiro.
O episódio marca um novo capítulo em meio ao fogo cruzado entre os grupos de Raquel e João Campos, com vistas para as eleições de 2026 ao governo do estado. O TCE tem sido um dos cenários da disputa, tendo proferido decisões desfavoráveis a ambos os lados — Campos está na mira de outra apuração, por possíveis irregularidades em contratos da Prefeitura de Recife. De cada lado, aliados da governadora e do prefeito afirmam que o tribunal estaria sendo instrumentalizado pelo adversário.
Procurado, o TCE destacou que, embora o conselheiro Neves tenha sido um dos votantes pela suspensão dos contratos firmados pela equipe de Raquel, ele não relatou o caso (a tarefa coube a Eduardo Porto, que já havia suspendido os pagamentos antes da votação na 1ª Câmara).
O tribunal também informou que o conselheiro Neves tem laço de parentesco tanto com o denunciante, “quanto com o secretário de Comunicação do Estado, Rodolfo Costa Pinto” — é a pasta desse auxiliar de Raquel que está na berlida após a decisão do TCE. Para a instituição, Neves atuou devidamente, “sem estar impedido para o julgamento (...)”.
Também despertou crítica, nos bastidores da administração pernabucana, o fato de que o conselheiro Neves exercia interinamente a presidência do TCE na data em que a 1ª Câmara avaliou os contratos. Mais uma vez, o parentesco com o denunciante aparece em meio a esses comentários. Sobre o tema, o tribunal diz que a participação de Neves no caso se deu apenas como julgador, “em nada se relacionando com a presidência interina da instituição”.
A pergunta que não quer calar:
João Campos vai ganhar as eleições com este formato?
Como ficará aqueles deputados que "dependem" de bases do PSB para de reeleger?
Como está a reconstrução do PSDB?
Os 140 prefeitos que estão na base da governadora Raquel Lyra, incomodou?
2026 já começou!