A indústria chamada "PATUSCO"
Concheci Itacy, fundador do Grupo Patusco, no ano de 1996. Trabalhamos um breve período juntos, mas, desde então, observo o desenvolvimento e desenrolar desta "Grife" de Batuqueiros Olindenses chamada Patusco.
Fazer uma entrevista com Itacy e Deco, com um olhar de direção, foi uma verdadeira viagem ao tempo. Senti-me como se estivesse na janela de um trem e, a cada relato, via a paisagem de 62 anos de histórias contadas. Foi uma viagem fantástica, onde pude ver o semblante de lembranças felizes daquele homem, de aparência simples, mas com uma sabedoria de rei, que domina uma nação, "Patusco", com suas ideologias, tranquilidade, mas com firmeza e direção no que quer.
Hoje, aos 81 anos, embora com a mente e corpo de 60, esqueci algumas datas, mas não os fatos relevantes. Mas, ele não tem a dimensão de aonde chegou, um grande industrial que dividiu seu saber criando, formando e conduzindo vários operários da Cultura. Tudo feito com muito amor, união e persistência.
Nos anos seguintes, as fantasias eram criadas, com foco nas sátiras políticas, pelo momento difícil, mas as fantasias mostravam a realidade do que o "povo" pensava.
“Só não havia coragem de falar”, diz Itacy, sempre preocupado com as questões sociais, desigualdades e política. Eram tempos difíceis e ele, numa auditória num órgão público do interior, saiu fugido numa ambulância, sob ameaça, por haver encontrado irregularidades.
Foi no carnaval que ele encontrou o melhor formato de expressar as sátiras com cartazes, carros alegóricos construídos por eles. Até uma vaca, em tamanho natural foi colocada nas ladeiras de Olinda. Com isso, o grupo de amigos, adeptos ao formato, foi aumentando e viraram páginas de jornais
Com o dinheiro do prêmio, compraram os primeiros instrumentos e começaram a ensaiar, sem saber tocar, os ritmos de samba.
Com as mudanças do carnaval de Olinda e o aumento de fluxo de pessoas, passou a ficar difícil o desfile nas ladeiras estreitas com carros alegóricos, grandes arranjos de cabeça e demais adereços utilizados. O adeptos foram crescendo, tentado aprender a tocar os ritmos de samba que em 94 surgiu a necessidade em focar na Bateria Patusco.
A coisa foi aumentando.
Quando o Olinda Beer convidou oficialmente para tocar no palco oficial, foi então que começou a primeira organização da "indústria" de batuqueiros. Foram 43 tocadores oficiais, produção e lógico, com toda essa energia e garra só poderia dar "sucesso total".
Os convites foram aumentando e isso gerou a necessidade de profissionalizar aquela "coisa" que já tomava uma proporção gigantesca.
Passou a doar o sopão, todas as quartas, fazer bazar, festa das crianças, com brinquedos, pula-pula, mais do que isso, nos ensaios, em sua sede, gerando empregos e renda para os pequenos empreendedores (ambulantes) que esperam o domingo para colocar comida no prato durante a semana.
A indústria Patusco, já formou milhares de tocadores e muitos desses, formaram seus próprios grupos, das 16 baterias (como chamam) existentes em Olinda, 13 foram alunos da Patusco e com isso, geram mais tocadores, mais empregos, mais renda, mais possibilidade para eles deslumbrarem novos horizontes, além da comunidade.
Itacy, que tem a família toda nascida e envolvida nesta produção, sempre ladeado e incentivado, apoiado dor Dona Sandra, a noiva de 1962, e hoje esposa há 60 anos, passou o bastão do comando para Deco, seu filho mais velho, com a veia de produtor e empreendedor.
A cultura, passando de geração a geração e sendo preservada, vista, direcionada. Não é à toa que o carnaval em Olinda tornou-se mundialmente famoso e recebe turistas do mundo todo, gera vários empregos, renda de diversas formas, diretas e indiretas, do ambulante, ao reciclador, ao artista, ao decorador, do aluguel de imóveis à venda de fantasias.
São diversos empreendimentos e a Patusco deve ser reverenciada por ter sido ousada, visionária, pioneira neste formato que ajudou este desenvolvimento e hoje vai para as ruas no carnaval com cerca de 300 pessoas, levantando a multidão ao redor, a bateria que faz ferver o sangue e acelerar o coração por onde passa.
Para encerrar, perguntei a Itacy quais palavras ele deixava como um grande homem de sucesso. Ele responde: “Além da inclusão, liberdade, respeito e amor, tema deste ano do Patusco, deixo como recado: seja humilde, queira fazer o melhor de si. Não é apenas mostrar o melhor: se fizeres o melhor, serás o melhor em tudo”.
Humildade, pé no chão e sucesso, é assim que traduzo Itacy Vasconcelos Guimarães, nascido em 1942, filho de D. Lourdes parteira e Sr. Antônio da Silva Mattos Peixoto, casado com Sandra de Oliveira Guimarães, 77 anos, 5 filhos, 5 netos e 3 bisnetos e centenas de filhos batuqueiros espalhados por aí, mais de mil encantando e fervendo as ladeiras de Olinda!